terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Noite



E, tão solto, vem-me hoje a poesia dos dias, o afago das manhãs, a quentura quase insuportável das tardes de verão, o entardecer cruel, que me deixa quieta e tola, vendo mais um dia ir-se embora, na beira cruel de mais um dia no precipício dos mundo. O entardecer deixa a marca da noite à chegar; e, à noite, somos todos sozinhos, mesmo acompanhados. É quando tomamos todas as nossas decisões; e a verdade das verdades espreita para açoitar a consciência.

O dia é quase suportável. Mas a noite... Ah!, a noite é açoite!

Paolla Milnyczul

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Desconecte-se

Hoje eu escrevo a minha raiva de pensar em tantas coisas e não conseguir escrever sobre nenhuma. 
Hoje eu escrevo a minha tristeza de viver em um mundo tão digital, em que tudo é mandado via bytes e pixels. Celulares apitam, redes sociais se enchem de notificações, quase nada atrai mais a atenção das pessoas, as mãos não se atraem mais para outras mãos - estão viciadas demais no celular para tal coisa - , quase ninguém lê. Sorrisos, olhares, um gesto... agora tudo se congela numa foto digital. Ando enjoada disso tudo. Coloco meu celular no silencioso como se para poupar a minha própria vida dos tantos barulhos que um celular é capaz de fazer, aproveito e poupo a vida e o ouvido alheio também.
As pessoas saem com outras pessoas, e ficam conectadas à mesa de um bar, um restaurante, ou algo nesse estilo, mal olhando uma pra cara da outra, dando curtidas em vidas vazias que se fazem felizes através de redes sociais. É um caos, e quase ninguém percebeu. Nada faz sentido, e eu me sinto perdida e sozinha nesse mundo, querendo viver analogicamente, quando ninguém mais é analógico, e isso deixa minha cabeça bagunçada e cheia de perguntas sem respostas.
Pare. Esqueça um pouco o celular. Esqueça as redes sociais. Silencie, e não se sinta preso à isso. Não vê como é algo pequeno? A vida é bem mais do que isso. A vida está num sorriso, num abraço, num olhar, num carinho ou afago, em mãos dadas e conversas, em ver como alguém gosta de ti só por um brilho nos olhos, ou um abraço mais apertado. Perceba como as pessoas se importam com você. Ouça as pessoas quando elas falam, não dê pouca importância: se as pessoas falam contigo, elas têm motivos para isso, elas querem dizer algum coisa, elas querem se expressar, portanto, escute com atenção, seja algo bom ou não - mesmo que não queira, ouvir o que machuca às vezes é necessário. 
Não exagere. 
Desconecte-se. 
Viva analogicamente. 
Sinta! Byte não tem coração.

Paolla Milnyczul 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Quantas Vezes?

Quantas vezes nos disseram que tínhamos que agir assim e não assado? Quantas vezes nos apontaram o dedo de forma acusadora sem termos feito nada? Quantas vezes nos falaram que é pelo nosso próprio "bem" não sermos nós mesmos? Quantas vezes nos acusaram de inverdades? Quantas? E quantas vezes você deu a cara pra bater? Quantas vezes você disse "não" a tudo isso? E quantas vezes você disse sim e deixou outra pessoa te controlar, como um mero fantoche? 
Quantas vezes você perdeu amigos por ser quem você é - e não arredar o pé de ser, mesmo sendo turbulento e tendo a personalidade difícil de lidar? E quantas vezes você ganhou mais amigos do que já tinha pelo mesmo motivo? Quantos amigos você tem que realmente respeitam o seu ser? 
Acordei pensando em tudo isso, porque nos apontam tantos dedos, nos falam sempre o que fazer, como nos portar, e como ser. Nos acusam sem saber, falam inverdades pelas suas costas, causam um turbilhão, mas sempre erram. Muita gente dá a cara para bater - eu sou uma delas! Jamais deixarei de ser quem sou! Já deu tanto trabalho chegar até aqui, e me respeitar e me amar do jeito que sou, me aceitando assim. Todos temos defeitos, e todos temos qualidades. 
Confesso que não sou fácil de lidar, que que a minha personalidade é forte, que a minha opinião é contundente, que eu sou seletiva com as pessoas, que não sou tão meiga nem tão fofa como aparento, que observo demais as pessoas e seus modos, trejeitos, manias e caráter, que sou impaciente, que sou meio calada e observadora, que nem sempre vou junto com a maré porque eu não sou igual a ninguém e ninguém é igual a mim - cada qual é um ser que temos que respeitar por ser quem é. Eu sou eu, e me amo e me aceito assim. E tenho amigos que me amam e me aceitam como sou! E é justamente por ser quem sou que são meus amigos. Quando você tem traços muito fortes na sua personalidade, sempre é mais difícil as pessoas se aproximarem, e mais ainda de gostarem de você como você é. Por essas (e outras) prezo tanto a amizade e os meus verdadeiros amigos. 
E a cada dia, por ser quem realmente sou, ganho cada vez mais amigos, e sempre preservo os antigos. 
Entende: quem te ama vai te amar do jeito que voe é, sem tentar te mudar. Aceita isso e seja quem você é. 

Tire a mascara e se ame como é.

Paolla Milnyczul

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Indomável(mente)

Acorda já cansada, mas com uma determinação incrível e aquele algo a mais que leva consigo aonde vá. Sente que os dias correm como um riacho que deságua num mar que está longe demais. O oceano é inatingível. Todos os dias parecem iguais. Trabalho, problemas, hora do almoço: tudo igual, nada muda. Mas, mesmo cansada, nos seus olhos fulguram duas chamas impossíveis de ser apagadas, mesmo pelas línguas mais maldosas. Apesar de se sentir fina e quebrável, cheia de chateações e cansaços intermináveis, há nela sonhos e algo que intriga. Sonhos quebrados pelas tensões do dia, pelo excesso de barulho. Sonhos quebrados pelo desconforto em não se sentir parte de nada, e ao mesmo tempo de lugar algum. Sua música confunde os outros. O toque do seu violino faz-se estranho. Suas ideias perturbam as cabeças mais abertas. Mulher de visão, veio querendo mudar o mundo. Pouco fala, muito observa. Ouve compulsivamente Cazuza. 
Não sente-se parte, e isso, de certo modo, a satisfaz. Satisfaz um desejo íntimo que nem ela conhece. De algum modo, realiza-se ao chocar as pessoas com ideias que não cabem ali naquele lugar, não cabem ali naquelas cabeças com visão deturpada, não cabem ali naquele espaço tao comum - e ela não é comum. Tem a cabeça longe dali. Pensa em todas as lutas travadas diariamente com o que não lhe agrada. Tem olhar feroz, ferino, cortante, e ao mesmo tempo sonhador e risonho. E tem a língua mais feroz ainda. Só fala algo quando sabem que a vão escutar. Mal sai do tom de voz, fala baixo e pausado, e não se incomoda que alguns não a escutem, mas não costuma alterar o tom de voz pelos outros - não costuma falar para quem não quer ouvir e tem cabeças fechadas a sete cadeados. É um pouco individualista, meio egoísta, centrada em si mesma. É um modo de se defender do mundo lá fora. Mas não se incomoda com seus defeitos: ao contrário, ama-os como ama a si mesma: imensuravelmente. 

Nada é capaz de fazê-la parar. Ela é maior do que o mundo.

Indomável.

Paolla Milnyczul




Todos os Direitos Autorais Reservados.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sobre o Sentimento de Inadequação

Hoje eu estava lendo sobre o sentimento de inadequação, e  realmente vi, imediatamente, que poxa, não fui só eu quem sente ou sentiu isso - não sou o umbigo do mundo. Sim, eu me sinto inadequada. Nunca me senti parte de muita coisa, nem de muitos lugares. Costumo tentar me misturar com  os demais, geralmente sem muita chance de sucesso - não sei, acho que a minha presença incomoda ou deixa as pessoas com um pé atrás - , mas finjo estar tudo OK e sigo em frente, porque não há como recusar a vida. 
O sentimento de inadequação sempre caminhou comigo, todos os dias da minha vida. Bateu mais forte hoje. Sinto-me cansada. Não consigo me adequar muito. (Significa que não sou adequada segundo os parâmetros da "normalidade"? Isso é algo há se pensar!). 
Na infância, sentia-me inadequada naquele espaço físico da escola. Vamos resumir: estudei numa escola particular, e, naquela sala, eu era a única parda de cabelo afro, e todos eram muito branquinhos com seus cabelos lisos, no máximo ondulados. Consequência: sentia-me perdida pois era vítima do preconceito, já quando criança. Os meninos faziam musiquinhas com meu cabelo, e me chamavam de apelidos que não irei repetir aqui mas que ainda ecoam na minha cabeça em certos momentos, e eu enchia eles de porrada (sim, eu batia, e muito!) até se calarem.  Por outro lado, me destacava pela inteligência, perspicácia e rapidez de pensamento - se há uma coisa que eu admito sem falsa modéstia é que sou e sempre fui MUITO inteligente. Tinha poucas coleguinhas, mas que mantenho contato até hoje, e algumas viraram grandes amigas, e o são até o presente momento.
Durante a adolescência, em momento algum consegui viver seguindo as regras preestabelecidas dos lugares em que estudei - oh, sim, eu sempre as quebrava, sem quase ninguém ficar sabendo! Sempre fui muito contra a maré, e não sei porque. Foi nesse momento que encontrei pessoas que pensavam o mesmo que eu. Bom ressaltar: naquele momento da minha vida, já pouco ou nada me abalava em relação à preconceito, etc. até porque as pessoas eram mais diversificadas e ninguém meio que ligava pra isso. Fazia amizade com as pessoas mais improváveis - os estranhos no ninho - , costumava falar com todo mundo, sem formar panelinhas, e ao mesmo tempo, quando não ia com a cara de alguma pessoa, não tinha santo que me fizesse mudar de ideia. Me sentia totalmente adequada e feliz com os inadequados e estranhos. Repeti a oitava serie por desatenção, mas, ao mesmo tempo, me tornei monitora de Química. Acho que, na verdade, eu despertava nas pessoas algo de curiosidade, ou de se sentirem completas ao meu lado... mas não sei. Não era como os outros. E o que era mais engraçado, é o quanto eu era respeitada tanto pelos colegas como pelos professores. Ninguém mexia muito comigo. Mas, em certos momentos, apesar de tudo isso, sentia-me totalmente fora de espaço. E isso já não era novidade pra mim. 
Fiz faculdade no interior de São Paulo. Morei 3 anos e meio sozinha, e era a única nordestina. Foi nesse momento que aprendi a driblar, confrontar e responder contra preconceitos, racismo e xenofobia. Soube me impor adequadamente, e deixar muitas pessoas caladas. Assim como no segundo grau, me respeitavam. Mas só que, naquele momento, eu servia de exemplo para todos. Não somente pelas excelentes notas, mas pela coragem de morar sozinha e fazer faculdade em outro estado, e de só ver a minha família duas vezes por ano. (Que, na verdade pra mim não era coragem alguma, afinal, qual era o problema de se fazer faculdade longe de casa? Na verdade, nunca pensei muito antes de fazer qualquer coisa, como mudar de estado em três dias, e acho que isso me ajudou bastante na vida - será?). Mas, apesar de falar com TODO MUNDO da sala, enquanto a maioria formava grupinhos e um criticava o outro, eu era sempre quieta, e muito observadora. Lembro-me muito bem de um episódio: iria ter um seminário em grupo, e eu não entendi muito bem pois tinha tido três provas e não estudei para o seminário - e nem minhas colegas - , mas tive coragem de ir apresentar esse seminário e de falar que não tinha entendido muito o sentido do trabalho e, por ter falado isso, consegui uma segunda chance de fazer o seminário porque fui honesta - enquanto outras pessoas que somente leram o que estava no papel não ganharam essa chance. 
Pela minha quietude, logo que comecei a trabalhar na minha área, depois de formada, era um total peixe fora d'água. Tantas pessoas já me perguntaram "mas o que você está fazendo aqui?"que nem consigo contar. Na verdade, até hoje, passados sete ou oito anos, ainda me perguntam. Sinto um mini bullyng (será?) em relação a isso, mas até o momento não constatei isso, e nunca pensei em como isso reflete em mim e no meu trabalho - se querem me acomodar, erraram, não sou do tipo que se leva pela boca dos outros. Mas acho que se ouvir mais uma vez "volta pra tua cidade, garota", vou bater de frente com a pessoa, então evito os mesmos lugares que ela - o que agora me parece impossível - pra não dar problema. Por outro lado, várias pessoas me ajudaram a vencer muitas barreiras, e a elas eu agradeço imensamente, pois me fizeram sentir parte essencial de um trabalho importante, e não o contrário. Elas nunca perguntaram "o que você esta fazendo aqui?". Essas foram as poucas pessoas que não me viram como quieta, mas sim como observadora e cuidadosa. Não tiveram uma leitura superficial de mim, e nunca duvidaram da minha capacidade. Mas, como são poucas pessoas, ainda sinto a inadequação todos os dias. 
Não vamos entrar aqui em termo de família ou relacionamento, porque não saberia descrever. A única coisa que posso colocar é que sempre bati muito de frente, e quando acho algo certo, batalho até o fim para que as pessoas me ouçam e entendam. Ou, no mínimo, respeitem. Não tenho medo de dar a cara a tapa se necessário. Digo muito o que penso, mas pouco o que sinto, e isso já me causou inúmeros problemas, alguns difíceis de contornar. Tenho aprendido mais a falar sobre o que sinto, mas ainda me expresso melhor escrevendo sobre isso. 
Sentir-me inadequada me levava a conhecer várias pessoas diferentes, com vidas deferentes, em lugares diferentes, tendo assim uma vasta rede de contatos ativa ainda hoje. Acho que de certa forma me ajudou a progredir muito na minha vida, por que nunca fui de me acomodar demais, nem de andar sempre com as mesmas pessoas, e nunca me conformar porque "tem-que-ser-assim". É estranho notar isso somente aos 33 anos de idade enquanto se lê um livro às 7h da manhã. 
Se eu gosto da inadequação? Não sei. Há uma necessidade constante e tão grande das pessoas de se adequarem ao "normal", que é fora do comum. Afinal, o mundo mudou muito desde quando o conceito de "normalidade" foi vendido por aí em livros de auto ajuda. 
Acho que todos se sentem inadequados, mas poucos têm coragem de admitir isso. Principalmente a si mesmos. Não é à toa que há tantos remédios rolando por aí de mão em mão e de receita em receita para se contornar a inadequação social que ronda nossas vidas.
Sorte (será só sorte?) minha aceitar-me tal como sou, e não ter que lançar mão disso para me sentir "aceitável socialmente".

Sinto-me adequada e ajustada à mim mesma.

Paolla Milnyczul