sábado, 11 de abril de 2015

Andamos

Não há certezas nesta vida, e o mundo não é entendível - uma verdade que enlouquece quem a acha. Assim como as pessoas não são entendíveis, pois fazem parte da natureza. Quem disse que entendemos alguma coisa nesse mundo louco? Estamos todos indo para o mesmo lugar, sem saber. E nadamos contra a maré, porque precisamos, para dar sentido, apalpar algo novo, nos destacarmos, termos nossos nomes e corpos em lugares aonde os outros não estiveram. Seguimos, no final, com todas as nossas verdades impostas, como formigas vão ao formigueiro achando que estão contra o fluxo, para chegarmos à conclusão de que nada se entende. O não-ser-entendível é maravilhoso e alucinante. Assim como as pessoas. As pessoas são seres diferentes, e eu somente as observo e tento entender seus motivos, o que as impulsiona, o que elas acham-pensam-veem.
Observo aquela mulher que caminha devagar, com a bolsa meio jogada, um cigarro na mão, a cabeça nas nuvens (será?); o homem que quase corre, atropelando a mulher, ao mesmo tempo olhando o relógio e falando ao celular; aquela criança de mãos dadas à senhora que está com o cachorrinho na coleira, andando devagar e sem pressa, apreciando a paisagem meio urbana; o adolescente empenhado em sua leitura, sentado em um banco qualquer; o casal que briga em silêncio, de caras fechadas, mas de mãos dadas - carinho dado em meio ao silêncio dos enamorados - ; os garotos que andam em grupo - tão jovens! - com skates debaixo dos braços; as meninas de cabelos coloridos e piercings, mascando chicletes e falando alto; o universitário de estilo grunge, de óculos de grossos aros carregado de certezas, livros, e sempre com pressa. Somos todos diferente - somos todos tão iguais!
Andamos nas ruas, com nossas roupas de grife, nos achando melhor do que os outros por causa da bolsa Louis Vuitton, que está exposta numa das vitrines da Oscar Freire, sem saber que não somos melhores do que nada nem ninguém, sem saber que cada ser é um mundo à parte, que cada mente tem sua (in)certeza.
Andamos nas ruas, sem nada que nos dê a importância devida, com a mente palpável andando pelo universo, sem bolsas de marca nem botas de couro, arrastando o All Star por lugares jamais entendíveis dentro da nossa mente, sem certeza de coisa alguma, sem saber, sendo mais importante do que pensa, pois é a mente de pessoas não-entendíveis é o  que move e muda o mundo. 
Andamos nas ruas, sem pensar em nada a não ser um pedaço de pão, indo para nossas casas de papelão, sem nada que nos conforte ou abrigue, julgados pela sociedade inumana e imunda, sem nada que nos dê o mínimo de paz.

Quanto a mim, cruzo com as pessoas na rua e vejo o quanto são vazias, com as suas certezas eternas sobre tudo.

Paolla Milnyczul

sábado, 4 de abril de 2015

O Lápis e a Borracha




Um não sobrevive sem o outro. Foram feitos um para o outro. Lápis e borracha. O lápis foi feito para ser consertado, para ser apagado - mesmo deixando uma ou outra mancha aqui e ali. A borracha foi feita para deixar a palavra mais bonita, um trecho esquecido, para consertar coisas.
Há pessoas, situações, coisas, ou momentos, que são como o lápis: foram feitas para ser consertadas, e se não for possível, serem apagadas: da memória, da lembrança, da vida. 
A mesma coisa vale para a borracha: há pessoas, momentos, e coisas que apagam o mal que fez a pessoa-coisa-momento-lápis e seus borrões indescritíveis que nada são, nem ninguém entende.
Não desmereço o lápis, não mesmo! Ele serve como aprendizado puro - aprender é bom, mesmo que doa às vezes. Deve ser por isso que crianças começam a escrever com o lápis - ele serve para ser apagado pela borracha, e reconstruído com mais força.
Assim é na vida, sempre tendo que ser reconstruída com mais força.

Paolla Milnyczul

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A Vida é Vermelho-sangue

Há de se ter estômago para verdades que nos rondam quando estamos deitados no escuro. Estamos perdidos — sim, perdidos!, e ninguém vêm nos buscar, nos salvar. Cada um que se salve! Cada um que busque a si próprio, nadando em braçadas largas para alcançar a corda da salvação. O mundo não deixa ninguém ileso: todos temos cicatrizes. Umas na alma, outras no coração, algumas no corpo. 
Eu sei, eu falo forte. Falo verdades. Falo o que não querem ver. Falo o que poucos entendem, mas muitos passam. Falo sobre o que ninguém quer lidar. Nem pensar. Nunca achamos que nada vai acontecer conosco. Ou com alguém perto de nós. Somos todos indestrutíveis. Sinto muito, mas não, não somos. Tampouco somos derrotados. Estamos todos no meio. Estamos todos nadando contra a corrente. Estamos todos nadando contra a morte, doenças, fatalidades, coisas que nos ameaçam, que nos fazem sentir tristeza, raiva, decepção, que nos fazem descobrir quão frágeis somos, quão efêmera é a vida — tudo isso em busca da felicidade enfeitada com confetes de cores doces e variadas, de contos de fadas, que não existe.
Mas a vida não é cor de rosa. A vida não é azul bebê. A vida é vermelho-sangue. A vida é forte. E ela te derruba num segundo. Basta você falhar um degrau da escada para rolar escada abaixo. Ou falar uma palavra no tom errado, para ter a língua cortada em inúmeros nano-pedacinhos. A vida te bate de verdade, com o pulso fechado e a mão aberta. Ela não deixa pra depois. Ela não tem rodeios, só desafios. Ela não te dá caminhos, você tem que os construir a facão como alguém perdido numa floresta, à mão, e fica com calos — feios, grandes, inchados e doloridos.
Tudo isso em prol de uma falsa felicidade. Tudo isso por não ver que o importante é o AGORA — a felicidade é o agora, é o instante de um piscar de olhos, é a sua xícara de café expresso.
A efemeridade da vida nos faz ver o que não queremos com um olhar bonito e questionador.
A efemeridade nos move. É o grande segredo da felicidade. 


Paolla Milnyczul


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quinta-feira, 26 de março de 2015

Ângulos




Eu tenho muito amor no meu coração. Mas nem por isso sou besta, boba, menina tonta que não vê as coisas que acontecem ao meu redor. Não, nada disso. Sou forte. E nem um pouco besta. Meiga só com quem merece. 
Mas sou super tranquila e gosto de paz, sabe? Da paz de ter um coração tranquilo. Da paz de ter uma vida sem pesos desnecessários. Da paz de ter na minha vida só quem eu gosto e prezo. Gente que me acrescenta coisas boas e me ajuda a ver a vida de ângulos bonitos.

Paolla Milnyczul

sábado, 14 de março de 2015

Cortinas da Vida

Tenho andado distraída. Ou ao menos parecido estar para algumas pessoas. Falado cada vez menos. prestado cada vez mais atenção a cada gesto. Andado com a audição bem aguçada e o olhar cada vez mais instigador. Tenho afastado alguns instintos predatórios para não queimar perante a fogueira dos conservadores. Para não me deixar levar somente por instintos, e sim pela razão. Razão esta que me deixa numa posição agora da qual não posso mais sair. E está tudo muito bem, sabe? Apesar da distração. De devanear lentamente ao ler qualquer frase de um livro qualquer, seja de fantasia ou filosofia - ando apaixonada por Kant! 
A questão central de todo esse discurso que não leva à lugar algum é que algumas pessoas falam demais. Não se distraem. Levam tudo a ferro e fogo. Tiram outras pessoas para mártir. Apontam demais sem sequer saber o que se passa. Não têm suporte emocional, e, para ter, tentam derrubar o suporte alheio, e acabam se abalando mais ainda quando veem que o alheio não é tão alheio assim, e que o equilíbrio não é tão desequilibrado assim. E, com isso, são descobertas as hipocrisias, o falatório demasiado, a falta de argumentação perante qualquer pergunta que saia do trivial, a satisfação de denegrir a imagem de qualquer pessoa que não agrade. Pois não me importa mais. Não me importa idade, não me importa condição, não me importa a queda da imunidade, não me importa mais nada que não seja a condição de respeito, que deveria ser inerente a qualquer ser humano diante de qualquer outro ser humano. 
E é aí que vejo - ah, sim, e como vejo! - que o meu silêncio é um amigo e tanto, que não aumentar o tom de voz está a meu favor, mas que às vezes é necessário falar mais com as pessoas certas e aumentar um pouco o tom para me impôr mais faz toda a diferença. 
A distração faz parte da peça. O olhar alheio, o pensar demais, o falar de menos, não. Essa realmente sou eu - quieta, na minha, observadora, às vezes até reclusa, mas atenta à qualquer manifestação. Pois, na verdade, todos estamos numa peça, e não adianta dizer que não estamos, pois todos nos protegemos: protegemos nossos umbigos, corações e mentes de qualquer um ou de qualquer situação que nos ponha em perigo, que nos denigra a imagem límpida e cristalina que demoramos tanto a construir, com sangue, vísceras, nervos inflamados que não tem cura, suores constantes e quedas de pressão, lágrimas e esforços repetitivos, faltas de ar e taquicardias. 
É simples: ninguém se mostra cem por cento; na vida, estamos todos encenando, e presos às cortinas. Todo mundo é mistério - uns mais, uns menos. E alguns são mais - me mostro bem pouco, e somente à quem merece - prefiro o mistério que não conseguem desvendar, um olhar que não conseguem definir. Poucos me conhecem realmente. Poucos me conhecem por inteiro, poucos são os meus amigos e amores, nos quais confio demasiadamente, a poucos me mostro como realmente sou, sem mistérios - ao final de tudo, sou engraçadíssima e palhaça, acreditem! - e quem são estas pessoas, ah!, elas sabem: são naquelas em que confio, não aquelas que eu conto minha vida, meus desafios, meus desatinos, minhas oscilações de humor; são aquelas a quem protejo, aqueles a quem eu me abro sem proteção alguma. Tudo depende de quem você é. A vida é encenação. [Ou não.].
Tudo isso porquê preciso me proteger do mal alheio. Da hipocrisia demasiada. De pessoas que não me fazem bem. (Nem aos outros.). De energia pesadas que emanam de alguns olhares e vozes estridentes. Mas dessa vez me protegi demais. Desta vez, vejo mais o meu próprio umbigo do que o dos outros. Desta vez, estou sendo egoísta. Desta vez, meu individualismo fala mais alto. Desta vez, não sinto muito.
Desta vez, o desfecho é o seguinte: me desculpe, mas não me desculpo por estar certa. 

E assim se abrem e se fecham as cortinas desta peça. 


Paolla Milnyczul