sábado, 21 de fevereiro de 2015

A Única Saída

Às vezes sinto como se estivesse enlouquecendo. Vejo o mundo ao contrário, valores virados do avesso, convicções erradas, e ninguém reclama, e ninguém diz nada. Minto. Alguns dizem, falam, reclamam, protestam, e também se sentem como se estivessem enlouquecendo, e estes são vistos como estranhos, desajustados, indesejáveis, quase uma pária, pelo simples fato de falar a verdade que veem sem os véus cinzentos de tule que estão em frente aos olhos, por não medir palavras, por ver o mundo tal qual ele é (ou está): um mundo despido de todos os sorrisos falsos e falsos tapinhas nas costas e cheio de indiretas medíocres que poluem rostos e corações; preconceitos velados ou abertos, amarguras acumuladas e estômagos revirados.
É fácil pirar com esse mundo. É fácil tentar encontrar um lugar no qual você nunca acha que se encaixa, e não encontrar. É fácil se sentir inadequado neste mundo errado. É fácil sentir que nada encaixa como se encaixava antes. É fácil ver o que está errado. É fácil para poucos. 
É difícil fazer com que vejam isso. É difícil tirar vendas de olhos fechados, que não querem se abrir, nem se render à verdade. É difícil fazer com que vejam a verdade. É difícil fazer com que as pessoas vejam que estão erradas, que peçam desculpas por atos errôneos, que mudem seu pensamento. É ilusão, quase uma utopia, achar que a maioria das pessoas realmente vejam o mundo tal qual ele é, e vejam seus erros tal como são: erros, pois somos seres humanos, e serem humanos são falhos. 
O mundo virou do avesso. O que era certo é errado, o que é errado é cultuado. 
Enlouquecer é a única saída. 

Paolla Milnyczul 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O Jogo

Não importa o que aconteça, você é julgado. Em qualquer lugar, por qualquer coisa, por qualquer roupa ou corte de cabelo. Por sorrir ou não. Por falar demais ou ser silencioso. 
Vão te julgar por tudo. Por suas unhas, pela cor do teu esmalte ou pela cor do teu cabelo. Por você escrever ou não.
É julgado por qualquer um que passe por ti. Que esteja lá. Que goste de você ou não. É julgado por quem não tem o direito de julgar ninguém. Ah, esse jogo de julgar, em que todos se perdem e ninguém se encontra, é um erro comum a todo ser humano. 

Julgar é um jogo em que todos saem perdendo.

Paolla Milnyczul

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Talvez. E só.

Várias vezes estive aos pedaços e tendo que segurar vários corações com uma só mão - inclusive o meu. Várias vezes vivi momentos difíceis, que nunca irão voltar. Várias vezes, inúmeras vezes, incontáveis vezes, tive que me fazer de forte para não deixar um outro alguém fragilizado. Suportei dores e perdas. Mas o tempo passou, e eu estou aqui. Meio aos pedaços, meio inteira, meio frágil, meio forte, meio assim, meio assado, meio aqui, meio acolá, mas viva. A lição que tirei disso tudo, é que o mundo é belo, e a vida é efêmera e frágil, e pode acabar num piscar de olhos. 
Mas, apesar de tudo, continuo sendo eu mesma. Meio alquebrada pelos chicotes do tempo, talvez, e, apesar de tudo, de todas as perdas e momentos difíceis, não me importo em romper laços que nunca existiram, nem deixar passar amizades em que nunca houve realmente a reciprocidade. Não me importo em romper com tudo o que não me faz bem. Crescimento interior também custa saber romper. E aprender com isso. Saber deixar pra trás, saber deixar estar, saber seguir só, sem precisar de muitas pessoas nem de muita coisas pra continuar. A gente aprende aos trancos, barrancos e buracos. A vida ensina, na marra da sua imensa finitude, a suportar perder.
Não sou apegada a muitas pessoas nem a muitas coisas. Talvez seja um resquício das cicatrizes.
Talvez nisso eu tenho mudado.
Ou talvez eu só tenha descoberto que posso chegar muito longe sem tanto por perto.
Talvez seja só o medo de perder de uma menina (ou mulher?) que escreve na noite quente de uma cidade do interior da Bahia, enquanto ouve rock e toma capuccino. 
Ou talvez não haja medo nenhum, só o desapego da superficialidade.
Talvez sim.
Talvez não. 
Talvez. E só.


Paolla Milnyczul



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Um Dia Qualquer



O café, quente, fumega entre os dedos no copo descartável. O cheiro vêm às narinas, enquanto a tarde avança lentamente. Pessoas vão e vêm, passam arrastando pés cansados na rua, onde o calor efervescente desenha sombras esticadas. Um ou outro conversam bobagens. Nada de importante parece acontecer. Parece ser só um dia qualquer, na vida qualquer de qualquer pessoa. 
Mas não é um dia qualquer.
Este foi o dia em que se descobre o dilaceramento feliz de ser quem se é. Sem [pu]dores, poréns, porquês, dois pontos nem vírgula. A gente anda sem muita coisa, mas incrivelmente feliz. 
E segredo consiste em saber equilibrar-se em si mesmo, um segredo que cada um carrega consigo, e ninguém mais.

Paolla Milnyczul  

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A(h), Ti


A(h), Ti

Ah, de ti, que me fizeste rir,
Menina de bonito ser,
Sorriso lavado,
De puro espírito,
E alma infantil.

Em tardes quentes,
Gargalhadas imberbes;
em meio à Bukowski e Wilde;
Leminsky, Martin
e Tolstói.

De ti, quero o sorriso
De ti, quero ouvir-te a voz
De ti, quero o poder de acreditar
Que o perdão existe,
Que o bem vence.

Ah, de ti, moça branca, 
De pele bonita e cabelos de ébano,
Quero somente a amizade
Pura em sua simplicidade
Bonita somente por existir.

(Eterna para almas ingênuas.).

Paolla Milnyczul 



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